Bem-vinda, Primavera!

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SEMANA DA LEITURA

Onde as Flores Aprendem a Ler

Há uma estação em que o mundo
se inclina para a luz
como um livro aberto
nas mãos da manhã.

As árvores ensaiam palavras novas,
sílabas verdes que estremecem
nos ramos ainda frágeis —
e cada flor
é um verbo que começa.

Ler é isto:
ouvir o que nasce
antes mesmo de ter nome,
seguir o rumor da terra
até ao centro do silêncio.

E, no entanto,
lá fora,
o mundo insiste na dureza:
há mapas rasgados pela pressa,
vozes feridas de ausência,
um cansaço antigo
a atravessar os dias.

Há ruas onde a esperança
caminha devagar,
como se tivesse medo
de não ser reconhecida.
Por isso regressamos aos livros.
Como quem regressa à água.
Como quem regressa a casa.

Abrimos páginas
como se abríssemos janelas,
e deixamos que o sol da primavera
entre pelas margens do papel.

Porque há palavras que salvam,
não do fim,
mas do esquecimento.

Palavras que são sementes
guardadas no escuro,
à espera de mãos pequenas
que as saibam dizer.

E são essas mãos,
as das crianças,
as dos jovens
que verdadeiramente escrevem o futuro.

Nelas, o mundo ainda é possível.
Nelas, a linguagem não desistiu.

São elas que leem
como quem acende
uma luz onde ninguém ousou ficar.

E então compreendemos:
cada livro é um jardim por cumprir,
cada leitor, um princípio.

E talvez baste isso,
um gesto,
uma página,
uma voz,
para que o mundo, mesmo ferido,
aprenda outra vez
a florescer

Graça Coelho

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