Há presenças que se tornam tão naturais no nosso dia a dia, que raramente nos detemos a pensar na importância que têm. A gatinha Mia era uma dessas presenças na Secundária de Lousada. Surgiu um dia, sem que ninguém soubesse exatamente de onde vinha, e acabou por conquistar o coração de toda a comunidade escolar.
Foram os funcionários da reprografia que primeiro a acolheram e cuidaram dela com particular atenção. Todas as segundas-feiras, bem cedo pela manhã, quando chegavam para iniciar mais uma semana de trabalho, lá estava a Mia à sua espera. Depois de dois dias de ausência, recebia-os com o seu jeito meigo, como se quisesse mostrar as saudades acumuladas durante o fim de semana. Permanecia sempre no exterior do estabelecimento, mas nunca deixava de marcar a sua presença.
Todos gostávamos dela. Alunos, professores, assistentes operacionais e funcionários habituaram-se àquela pequena figurinha felina que circulava, serenamente, pelos espaços da escola. Bastava um cumprimento, uma palavra carinhosa ou uma breve festa no seu pelo macio para tornar o dia um pouco mais leve para todos. A Mia não precisava de fazer grandes coisas para ser importante; bastava existir.
Nos últimos anos, a relação entre as pessoas e os animais de estimação tem-se tornado cada vez mais próxima. Os animais deixaram de ser vistos apenas como guardiões das casas ou simples companheiros ocasionais para passarem a ocupar um lugar especial nas famílias e nas comunidades. Muitos deles proporcionam conforto emocional, ajudam a combater a solidão e oferecem uma forma de afeto puro e desinteressado que dificilmente encontra paralelo nas relações humanas.
Contudo, esta crescente valorização dos animais nem sempre é acompanhada pela reflexão necessária sobre as responsabilidades que temos para com eles. A legislação portuguesa relativa ao bem-estar animal recorda-nos que os detentores de animais devem assegurar-lhes alimentação adequada, proteção contra condições climatéricas adversas, assistência veterinária e condições que garantam a sua segurança e bem-estar. Os animais são seres vivos dotados de sensibilidade e, por isso, merecem cuidados permanentes e respeito pela sua condição.
Apesar disso, a vida acelerada dos nossos dias leva-nos, muitas vezes, a esquecer a vulnerabilidade destes seres. Quantas vezes pensamos no que acontece a um animal durante um fim de semana de chuva intensa? Quantas vezes refletimos sobre o sofrimento provocado pelo frio rigoroso do inverno ou pelo calor abrasador dos dias de verão? Quantos animais enfrentam diariamente os perigos da estrada, da fome, da doença ou do abandono?
A Mia recordava-nos, silenciosamente, estas realidades!
Embora fosse vista diariamente, talvez poucos se interrogassem sobre os riscos que enfrentava quando a escola fechava, quando a noite caía ou quando o mau tempo chegava. A sua presença discreta ensinava-nos, sem palavras, que a proteção dos animais não deve depender apenas do afeto momentâneo, mas também de uma consciência responsável e permanente.
Escrevo este texto no dia 1 de junho, precisamente no Dia da Criança, data instituída para promover os direitos, a proteção e o bem-estar infantil, servindo de alerta para os problemas e desigualdades que as crianças enfrentam globalmente. Foi preciso a Mia desaparecer para muitos perceberem verdadeiramente a importância que ela tinha! A sua ausência trouxe um silêncio estranho aos espaços onde costumava estar. Já quase não há aquele olhar atento à chegada das segundas-feiras, nem o cumprimento silencioso que se transformara numa rotina, quase impercetível. Só agora compreendemos quanto a sua presença fazia parte da identidade da nossa escola.
Não sabemos muito bem quem a levou… Talvez alguém a tenha recolhido por carinho e/ou preocupação. Talvez tenha encontrado um novo lar. Talvez nunca venhamos a conhecer a resposta. O que sabemos é que a sua falta é sentida por todos aqueles que, ao longo do tempo, se habituaram à sua companhia discreta e afetuosa.
A história da Mia convida-nos a uma reflexão, ainda, mais profunda! Quantas vezes apenas valorizamos algo quando deixa de estar presente? Quantas vezes ignoramos os pequenos gestos, as pequenas presenças e os pequenos afetos que enriquecem os nossos dias? A nossa gatinha ensinou-nos que até um ser aparentemente insignificante pode deixar uma marca duradoura numa comunidade inteira.
Hoje, mais do que recordar uma gata que habitava os espaços da escola, recordamos uma lição de Humanidade. Porque o valor da gatinha Mia não estava apenas na ternura que despertava, mas também na capacidade de nos lembrar que cuidar, proteger e respeitar os mais vulneráveis é uma das mais nobres expressões da condição humana.
A Mia desapareceu dos nossos olhos, mas permanece na memória de uma escola que aprendeu, através dela, que a grandeza de uma comunidade também se mede pela forma como cuida dos seus seres mais frágeis.
Escola Secundária de Lousada, 1 de junho de 2026
Graça Coelho, Professora Bibliotecária
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